A razão.

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Alta madrugada e um trio improvável bebe em volta da última mesa disponível na calçada em frente a um boteco qualquer, numa esquina qualquer de uma cidade qualquer. Os rostos cabisbaixos e iluminados pelas timelines passando nos celulares eram incapazes de perceber o vai dos últimos boêmios e o vem dos primeiros trabalhadores do dia.

– Onde está a razão que não vem?

– Será que ela chega um dia?

– Talvez tenha chegado antes de nós, se embebedado e caído no mundo. – conclui o de mais idade, completando: – Talvez também tenhamos que perder a razão para encontrá-la.

Os três permanecem calados por alguns segundos, pensando e deslizando os dedos pelas telas iluminadas de vidro. Ouve-se apenas o som do garçom lá dentro arrumando o salão e assobiando o último hit do Safadão interrompido, por vezes secamente, pelo barulho das cadeiras de plástico sendo arrastadas e do passar do rodo no chão.

O mais jovem do trio, com respiração pesada e ainda sem encarar os demais rompe o silêncio da mesa:

– Isso não é justo! Por que eu não posso nunca estar com a razão? Vocês dois já estiveram diversas vezes com ela. Eu não! Algumas vezes eu até pensei que ela pudesse estar ao meu lado, mas vocês sempre se esforçaram em mostrar que não, que eu não estava com a razão! Por que? Por que não me deixaram pelo menos pensando que sim, que eu podia estar com a razão? Foda-se se eu não estava! O que importa é que eu acharia que estava. E teria feito coisas que vocês, mesmo sempre com a razão, nunca se aventuraram a fazer. Eu teria seguido meus impulsos, minhas necessidades, meus desejos com a certeza de que EU estava certo. Vocês tem noção do que vocês me roubaram? Eu teria mudado o mundo!

O segundo do trio, que parecia mais velho, rebate:

– Ora, pare de culpar os outros pelos fracassos que você ainda nem teve, fedelho! Não me venha com esse mi-mi-mi revoltadinho agora, supondo que nós escondemos a razão de você. Eu sempre vivi a minha vida seguindo a minha própria razão, coisa que, aliás, você nunca se prestou a fazer! Com um pouquinho, só um pouquinho, de esforço, você poderia encontrar a sua própria razão em vez de culpar os outros pelos seus sonhos não realizados.

O terceiro do trio, bem mais velho, interrompe o segundo:

– Cale a boca, estúpido! Pare de dar lição de moral no guri. Não era a sua própria razão. Nunca foi. Será que nunca percebeste que eu é que tratei de colocar a minha razão nas suas ações?! Os seus ideais, seus sonhos, sua bem sucedida carreira, tudo que você conquistou foi graças a uma única razão. E não foi a sua. Perdi a juventude abrindo mão da minha razão para que ela desse um sentido para a sua existência!

Pela primeira vez os três desgrudaram os olhos dos celulares e entreolharam-se, trêmulos, corações ainda palpitando com os desabafos. O garçom, que tinha parado de assobiar e observava tudo de longe, voltou a fazê-lo, enquanto empilhava as últimas cadeiras e torcia para que aquilo não acabasse em confusão. Pensou porque diabos aqueles três não iam embora. Só faltava agora eles brigarem. Ansiedade, confusão, desilusão no ar. Tentando soprar o climão pra longe, soprou mais forte o refrão… “Você partiu meu coração….“

Disposição para sair no tapa, felizmente não havia. Aliás, não havia ali disposição para mais nada. Naquele átimo de segundo, o desejo de estar com a razão tornara-se menos importante que a vontade de dividir espaço um com o outro.

Vieram por orientação do mais velho. Sentaram-se para botar as coisas em pratos limpos à pedido do outro. E começaram a discutir, claro, pro causa do mais jovem. E por que diabos?

Porque o presente não tolera um futuro sem razão. Porque o futuro busca uma razão que o presente não enxerga. E porque ao passado só resta ser encarado pelo presente e pelo futuro como algo com uma razão que não existe mais.

Todos os porquês estavam na mesa. A razão, nope.

E naquela fração estacionada do tempo numa esquina qualquer, os três desistiram de tentar encontrá-la. Não seria ali, naquele encontro improvável. Talvez a sós fosse mais conveniente e prazeroso estar com a razão, desfrutar da razão, se deliciar com a razão. Não havia para eles a partir de então sentido algum em dividir a razão com ninguém.

Em silêncio, cada um deixou um trocado na mesa pra pagar a cerveja não bebida e sem mais palavras fizeram um acordo tácito de nunca mais se encontrarem novamente. O sol estava nascendo. Era melhor esquecer aquele desencontro e partir em busca de seus próprios caminhos. Mantendo cada um a sua razão, mas bem longe um do outro.

Partiram cabisbaixos e com os rostos iluminados pelas suas timelines, digitando e discutindo pelo celular. Um em busca de sua própria razão. O outro fugindo da razão alheia. E o terceiro sem a menor razão.

Perderam–se pelas vielas da vida.

Já não conseguiam enxergar um ao outro – e não tinham mesmo o menor interesse em olhar pra trás. Mas se assim fizessem, teriam percebido a chegada tardia àquele bar do motivo de tanta espera.

Ela, que chegou pedindo uma cerveja no balcão e fez questão de assobiar “… um pedacinho do meu esquema” junto com o garçom para que ele trouxesse a mais gelada. Ela, perdida no mundo e sempre atrasada, parece até que só pra mostrar que não é de ninguém. Ela, tão comunzinha e tão diferentona de todas as outras. Ela, que é sempre refém do tempo e que nem sempre tem sua própria razão.

Ela, a própria razão.

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