Nasrudin e os novos profetas

Nasrudin

Tenho participado de vários cursos e palestras tentando entender os novos rumos da comunicação, do empreendedorismo e dessa tal nova economia criativa. E tenho aprendido muita coisa nova. Vivemos mais que uma mudança de era. Vivemos a própria era das mudanças.

É claro que tantas mudanças geram incertezas. Momento em que proliferam novos profetas. Aqueles que apresentam-se como portadores do um ponto de vista privilegiado e de uma espécie de Whatsapp do futuro que os transforma nas pessoas certas para guiar a todos na travessia por esse deserto de dúvidas.

É a era de profetas que embalam conceitos antigos que sempre estiveram aí com rótulos novos, terminologias moderninhas, processo didático dito colaborativo, inclusivo, disruptivo, orgânico, fora da caixa… (repare que todas essas palavras fazem parte do arsenal léxico dessa nova era). Em suma, um terreno fértil para a bullshitagem.

Acho que muitas dessas discussões são válidas e trazem novas ideias e estratégias. Mas, como diria Peter Drucker, a cultura devora a estratégia no café da manhã. E nem todo novo pensamento deve ser aplicado só porque se diz novo.

É preciso sempre usar uma ferramenta bem antiga chamada Bom Senso. Esse discernimento e capacidade de adaptação e escolha é que nos faz evoluir e garantir que uma frase de efeito como “Feito é melhor que Perfeito”, não vire uma desculpa para mediocrizar parâmetros de qualidade, por exemplo.

Entender o espírito do tempo em que vivemos é fundamental. E para mim tem sido produtivo seguir na plateia acompanhando esses profetas. Com uns, estou realmente abrindo meus olhos para um mundo novo . Com outros, procuro exercitar um pouco mais o meu bom senso e capacidade de discernimento. E com alguns outros, simplesmente procuro buscar em mim algum aprendizado alquímico capaz de promover a transmutação shit to gold. Mas ainda não consegui.

Ouvindo essa última turma, lembro sempre de uma história que ouvi de um professor nas aulas de antropologia da faculdade, que gostaria de compartilhar com vocês.

Nasrudin é um ser mitológico natural da Turquia. Não se sabe se realmente existiu, apesar de existir ate uma tumba no país com seus restos mortais. Suas histórias são bastante conhecidas em vários países do oriente médio. Nelas, ora ele é retratado como um sábio, ora como homem simplório mas com saber do povo, ora como um golpista. Mas sempre com histórias carregadas de ensinamentos. E é uma delas que compartilho com vocês:

Em algum lugar do passado, havia uma pequena vila no interior da Turquia que passava por um longo período de seca. O gado morria, as plantas não vicejavam e as esperanças iam embora junto com os mais jovens, que resolviam largar tudo e tentar a sorte em outras paragens.

Mas eis que um dia as chuvas vieram e garantiram uma safra como a muitos anos não se via. Os celeiros logo foram abastados de comida e provisões para um bom período. Os aldeões mais velhos sabiam que era preciso também celebrar e garantir na memória dos mais jovens aqueles momentos de felicidade e bonança, para que eles tivessem mais paciência nos próximos períodos de seca, que certamente viriam, e não abandonassem a vila.

E assim organizaram um grande festival. Com muita música, dança, comida e alegria. Um grande palco foi montado no centro da vila para as atrações. E um grupo de sábios decidiu que era preciso trazer uma atração especial para o evento, que marcasse aquele momento na memória de todos.

Para isso, eles subiriam a grande montanha e tentariam convencer o sábio eremita Nasrudin, que por décadas viva recluso naquelas cavernas, a descer e compartilhar com os jovens todo o seu conhecimento e visão de mundo.

Assim foi feito. Uma expedição foi montada e com muito custo conseguiram chegar ao alto daquela montanha mística. Um desafio que só não foi maior do que convencer o sábio Nasrudin a descer até a vila e compartilhar uma partícula de seu conhecimento com o povo, na grande festa que havia sido preparada.

O ancião relutou e teimou em não descer, mas por fim cedeu às súplicas de seus conterrâneos e assim iniciaram a longa jornada de volta.

A caravana foi recebida com música e foguetório e logo a população se aglomerou na frente do palco para ouvir aquele que tudo via e sabia, lá do alto daquela montanha mística.

Nasrudin subiu ao palco e fez-se naquele momento um silêncio sepulcral. O velho encarou a multidão e lançou em voz alta a pergunta que criaria enorme expectativa naquele povo sedento de conhecimento:

– Vocês sabem o que vim lhes falar?

A vila em coro respondeu em coro uníssono:

– Nãããããooooooo!

Nasrudin então responde secamente, já descendo as escadas:

– Então por que me chamaram?

A multidão perplexa assiste o velho montar em seu burrinho e partir de volta em direção à sua montanha. A incredulidade tomou conta do grupo que organizara o evento, paralisando-os. Até que partiram atrás do sábio em seus cavalos, encontrando-o já fora da cidade.

– Perdoe nossa humilde gente, mestre. São ignorantes que não estão preparados para ouvir a sua palavra.

– Sim, por favor, nos dê mais uma chance de ouvir o que tens a dizer.

E assim, a caravana entra novamente pela cidadela. O silêncio de incredulidade rapidamente volta a se transformar em alegria. Nasrudin voltou e eles ouviriam grandes e inspiradoras verdades.

O sábio sobe ao palco e lança novamente a pergunta:

– Vocês sabem o que vim lhes falar?

Dessa vez, a população, já preparada pelos organizadores, responde com ainda mais firmeza em uníssono:

– Siiiiiiiiimmmmmmm!

Nasrudin responde novamente decepcionado, já tomando o rumo de seu burrinho:

– Então por que me chamaram?

Novamente um grande alvoroço se fez e novamente os organizadores partem em desatino tentando convencer o velho a não abandonar a cidade antes de dar mais uma chance à plateia.

– É gente do campo e sem estudo, mestre. Por favor, pedimos só mais uma chance. Volte e reparta conosco uma mísera fração do seu conhecimento.

E assim se fez. O sábio sobe novamente ao palco, não antes de deixar claro que aquela seria a última vez. Lá de cima via-se agora uma plateia totalmente em dúvida de como se portar diante daquele sábio. E vem novamente a pergunta mortal:

– Vocês sabem o que vim lhes falar?

Silêncio e confusão no ar. Logo ouvem-se algumas pessoas perdidas na multidão falando sem firmeza alguma que SIM e outras sem a menor certeza falando que NÃO.

O sábio sorri e responde:

– Ótimo.

Alívio geral na vila. Mas então ele continua sua fala , novamente tomando o rumo de seu burrico:

– Então agora vocês que sabem contem para os que não sabem.

E tomou o rumo da sua montanha.

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