Inside the Hyper. Outside the Island.

Na última semana finalizei meu segundo curso na Hyper Island, dessa vez o Digital Acceleration, em Porto Alegre. O primeiro, The Hyper Island Way, focado em gestão de equipes e liderança criativa, tive a oportunidade de cursar em Estocolmo, na cidade onde nasceu essa inovadora escola de negócios criativos. E foi tão bom que resolvi fazer o segundo curso aqui no Brasil.
Para quem não conhece a história da Hyper, ela surgiu como uma empresa de confecção de CD-ROMs, na década de 90, mas logo descobriu que precisava se reinventar para continuar sobrevivendo ao avanço das novas tecnologias. E esse processo acabou transformando-a em uma das escolas de inovação mais conceituadas do mundo, com direito a sede própria em um ex-presídio na Suécia (só isso já garante um belo conceito criativo pra escola, né?) e operações espalhadas pelos principais mercados do mundo, como NY, Singapore, London, Bogotá e mais recentemente São Paulo e Porto Alegre.
A boa notícia que trago pra quem tem interesse em fazer o Digital Acceleration no Brasil é que as aulas oferecidas aqui tem a mesma essência das que tive na Suécia. Apesar de ter feito cursos diferentes lá e aqui, deu pra perceber que o DNA é o mesmo: tudo começa com o indivíduo. Com as necessidades humanas. E a partir daí a Hyper nada de braçada, levando você a aprender fazendo. E a refletir, refletir e refletir bastante durante todo o processo.
“Nosso desafio é descobrir como ser mais interessante que o smartphone do outro”.
Você deve estar se perguntando que tecnologias maravilhosas eu conheci nesse curso de Digital Acceleration. A resposta pode ser um pouco decepcionante, mas foram as mesmas que provavelmente você já ouviu falar por aqui.
Lógico que sempre pinta uma menção a um app ou device novo, como referência de uma ação inovadora que está sendo desenvolvida em algum lugar do mundo, como carros autônomos, Inteligência Artificial, Botnets e afins. Mas o que está por trás do sucesso ou fracasso de todas essas inovações será sempre a necessidade humana, lembra?
Por isso, a tecnologia mais estudada na Hyper será sempre aquela que está dentro da sua cabeça, o seu jeito de pensar. A filosofia da escola se baseia no fato de que que não existe mudança na estratégia sem mudança na cultura. E não existe mudança na cultura sem mudar o mindset.
Por falar em mindset, fiquei apaixonado por essa palavra, que é uma das mais faladas durante o curso. Acho que traduzi-la para o português como “mentalidade” tira a força do conceito de ensino praticado pela escola. Mentalidade me parece sempre algo arcaico, estabelecido, imutável. Mindset me remete mais claramente à ideia de mente (mind) que se pode ajustar, ou “setar”. Acho uma maneira legal de imaginar a proposta da Hyper.
A partir da lógica das necessidades humanas, da mudança de mindset, do permitir-se errar e da diminuição de ciclos operacionais (ciclos mais curtos), tomamos conhecimento no curso de uma série de ferramentas e métodos de aceleração de processos, como Scrum, Agile Mindset, Job To Be Done, que não vou me aprofundar agora.
O que eu queria realmente me aprofundar é num ensinamento simples e de grande relevância, sobretudo para aqueles que trabalham com geração de conteúdos: a importância das conversas.
Não parece óbvio que qualquer projeto precise ser bem conversado? Imagine então os que tem a ver com comunicação! É… mas a gente sabe que na prática não é bem assim que as coisas acontecem. Ok, os prazos e processos muitas vezes impedem as conversas, mas bem que a gente podia procrastinar por alguns momentos a troca de e-mail, de whatsapps e de arquivos para aquela pessoa que está sentada na mesa ao lado e simplesmente chamá-la por uma boa e velha conversa, né?
O falar e ouvir na cara, o tét-à-tét , o olho no olho, ainda é a melhor forma de fazer uma campanha matadora. De captar o riso forçado ou o olhar desconfiado e fazer ajustes. De enxergar na expressão do outro um caminho diferente. De entender que uma colaboração pode ser mais que pertinente, pode ser genial. É também a melhor forma de argumentar, de vender e comprar a necessidade humana por trás de uma iniciativa.
Por incrível que pareça, é preciso exercitar isso dentro dos ambientes de criação, de atendimento, de planejamento, nas agências e nos anunciantes. As relações entre profissionais, entre departamentos e entre agência e seus clientes (infelizmente, quando a concorrência permite, vide último post) precisam de mais conversas. É preciso ouvir mais, dar chance para diferentes pontos de vista, processar e retribuir. Porque é nesse momento que também se materializa um outro conceito amplamente difundido na Hyper: o da colaboração, do trabalho compartilhado, da co-criação.
É por isso que acredito que departamentos de criação de agências de propaganda precisam de um pouco de barulho, de zum-zum-zum produtivo, de construção e desconstrução coletiva de argumentos. Claro que existem momentos que é necessário se isolar para se concentrar numa tarefa. Como redator eu sempre precisei dos meus momentos de silêncio. De me isolar na minha ilha. Mas isso não pode ser motivo para ficar o dia todo com o fone de ouvido e usá-lo como uma placa informando que suas orelhas estão fechadas para conversas.
Um dos momentos mais marcantes para mim do curso de Porto Alegre veio a partir de uma proposta de um dos speakers, o baiano-sueco Caio Andrade (siga esse cara!). Ele propõe substituirmos o termo IDEIA pela palavra CONVERSA. Segundo ele, IDEIA já pressupõe um pensamento já formulado, concebido, algo que você (e só você) pensou. Já uma conversa é algo sempre em construção, bilateral, e ainda sem um final definido.
Sendo assim, que tal trocar o “eu tive uma ideia” por um “vamos ter uma conversa” e deixar a coisa fluir? O negócio é sair da própria ilha de convicções, construir pontes e içar as velas do barco. Se isso te incomodar um pouco no início, relaxe e não desista, insista. Até porque sair da zona de conforto também é um conceito que a gente precisa saber trabalhar.