Just Post-It.

Era uma belezura de folhinha de papel rosa pink, grudada numa parede de vidro do escritório em meio a inúmeros outros post-its. Um ponto rosa luminoso cercado de fileiras organizadas de papeizinhos verdes e roxos fosforescentes, azuis cianos, vermelhos rubros, amarelos cítricos e, claro, também alguns daqueles mais comuns, os amarelos desbotados, iguaizinhos a ele, que só admirava encantado de longe.
Ele, que simplesmente apaixonou-se. Ele, que não quis continuar só admirando.
– Tá, sou um post-it amarelo desbotado, sim. Mas já tive meus momentos de glória. – Ele adorava lembrar aos outros e a si mesmo disso e de outras coisas frugais da vida. Mas agora seu objetivo era vencer o abismo de timidez que o separava da parede de vidro e mandar alguma mensagem mais direta para aquela que não mais sairia das suas lembranças.
Resolveu falar o nome que ela carregava consigo:
– Ideia!
– Quem falou? – Respondeu surpresa, desacostumada que era a ouvir alguém falar mais alto. – Quem falou meu nome?
– Eu aqui do outro lado, colado no cantinho do monitor da mesa em frente!
O fato é que a desejada folhinha de papel adesivada rosa pink onde se lia Ideia nunca tinha percebido que havia um monitor na mesa do outro lado da sala. E ainda mais que tinha um post-itzinho, old school, daqueles amarelos desbotados, largado ali no cantinho daquele monitor.
– Consegue me ver daí?
Tudo bem que o alvoroço em torno da ideia era sempre grande. Mas agora, na calmaria do escritório vazio depois do expediente, sem as pessoas olhando pra ela, paparicando ela, celebrando ela, finalmente a belezura de post-it rosa pink onde se lia Ideia percebia o post-it amarelo desbotado do outro lado da sala, meio colado, meio dobrado, meio sei lá.
Convenhamos… a primeira impressão que ele causou não foi legal. Também pudera, né? Para ela, aquele post-it ali, daquele jeito, era típico de quem nunca tinha visto um tutorial de como tirar post-it do bloquinho. Gente desconectada. Ou então de quem tinha deixado um recado às pressas, sem planejamento, método, estudo de caso. Boa coisa não podia vir dali.
– Você fala!!! – Disse a belezura de post-it rosa onde se lia Ideia quase que duvidando que aquilo era possível.
– D-desculpe se incomodei. – Emendou o acabrunhado post-it amarelo desbotado, para surpresa ainda maior dela.
– Não! Eu é que peço desculpas. É que, sem querer parecer arrogante, mas… já participei de inúmeros planejamentos, brainstormings, hackathons… você, sabe, né? Esse ambiente de start-ups, economia criativa, design thinking… eu sou acostumada com mudança de mindset, disrupção, pensamento divergente e convergente, kanban, canvas, coisa e tal… mas nunca vi antes um post-it sozinho conseguir falar alguma coisa!
– Ué, mas você também fala! – respondeu o agora não tão acabrunhado post-it amarelo desbotado.
– Ah, é diferente, né? Eu carrego a ideia. E olha só quanto post-it tem em minha volta: Colaboração, Empatia, Experimentação, Feedback, Equipes Multidisciplinares, Stakeholders, Awareness, Objetivos, Prototipagem… tudo isso faz a ideia falar mais alto.
O final da última frase foi terminada com a belezura de post-it rosa pink olhando ainda mais de cima pra baixo o post-it amarelo desbotado, meio colado, meio dobrado. E pra mostrar quem mandava ali, ela ainda jogou na lata: – À propósito, não dá pra ler daqui o que tem escrito aí em você.
Foi aí que nosso já um pouco mais à vontade post-it amarelo desbotado mostrou que também era descolado. Ele sabia que onde tem uma ideia, tem sempre curiosidade:
– Ah, é que minha mensagem foi desenhada à lápis, com letra pequena e fininha. Não foi escrita com pincel atômico como a sua Ideia, não.
– E porque alguém escreve um post-it com traço fininho assim, cara? O objetivo da gente não é ser visto e lembrado?
– Ah, é que eu carrego uma mensagem pessoal, sabe? Não é pra todo mundo ver. Mas te garanto que minha mensagem também foi vista e lembrada, viu!
Pronto. Estava lançada a isca. E a belezura de post-it rosa pink escrito Ideia mordeu, curiosa pra saber mais:
– Como você pode ter certeza? Não vejo nenhum post-it à sua volta embasando isso. Nenhum Check List, nenhum Feedback, nenhum Mapeamento. Cadê a Comprovação? Cadê a Iteração? Cadê o B.I.?
– Não conheço nada disso, Rosinha, eu sou das antigas. – retrucou um já confiante post-it amarelo não tão desbotado. E deslanchou:
– Eu trabalho com percepção. Eu simplesmente desconfio, pelo simples fato de que o escritório está vazio. E nem a moça que me colou nesse cantinho de monitor e nem o rapaz que escreveu Ideia em você estão mais aqui. Aliás, você percebeu como eles estavam na mesma sintonia quando pintou essa Ideia escrita aí em você?
– Agora que você falou… é verdade! – Concluiu uma desconfiada folhinha de papel rosa pink. – A ideia pintou até mais cedo que o normal e eles foram embora, encerrando o expediente.
– E juntinhos, reparou?
– É, eu percebi um movimento estranho quando cada um colou um post-it escrito Ousadia ao mesmo tempo aqui no vidro.
– Isso mesmo. Foi um pouco antes da moça me grudar no cantinho do monitor do computador do rapaz.
– Tá, mas e daí?
– Daí que uma ideia puxa outra. – sorriu com ar safado o post-it amarelo nada desbotado.
– E por que eles não colaram essa outra ideia aqui do meu lado?
– Olha, acho que eles já partiram direto para a fase de Experimentação da outra ideia, longe daqui.
De repente, aquela belezura de folhinha de papel rosa pink onde se lia Ideia, que se achava tão moderna, ruborizou. E depois caiu em si, sentindo-se abandonada:
– E me esqueceram?
– Só por um momento, não se preocupe, Rosinha. Mas eu não te esqueci. Pra mim você ainda é a melhor das Ideias. Pois foi por você que eu nasci. Você é a razão da minha existência.
– Sabe que eu tô começando a te achar colaborativo, Amarelinho. Agora para de me enrolar e diz aí o que tá escrito em você.
– Porque você não vem ver de perto? Desgruda dessa parede e se joga, Ideia.
– Achei que você fosse tomar a iniciativa, Amarelão!
– Ué? Não era você que se achava moderna? Bora dividir a iniciativa, então.
– Combinado. No 3, os 2 se jogam.
– Vamos nessa.
– Um, dois…
No outro dia, dois post-its foram encontrados pelo pessoal da limpeza no chão do corredor, entre a parede de vidro e a mesa do computador. Estavam amassados, manchados, levemente rasgados e tão grudados um no outro que pareciam um só. Pareciam lixo. E foram parar na lixeira. Não sem antes o faxineiro conferir o que continham.
No lado rosa pink, a palavra Ideia.
No lado amarelo, só o desenho à lápis de um coração.
Puta história legal e boa de se ler, como sempre, parabéns.
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